Monografia: Conclusão

O sistema bancário surgiu em decorrência da divisão do trabalho, que originou as mercadorias-moedas e conseqüentemente a moeda, inicialmente cunhada em metais e posteriormente passando ao papel-moeda e finalmente a moeda escritural e eletrônica. Tanto o surgimento como as alterações que ocorreram no sistema bancário através dos tempos foram motivados pelas necessidades da sociedade. Primeiramente foi necessário um local seguro para a custódia dos valores, seqüencialmente os custodiantes desses valores perceberam a possibilidade de utilização de determinado percentual por meio de empréstimos aos comerciantes para ampliação ou inicio de seus negócios.

O sistema bancário no Brasil surgiu com a vinda da família real em 1808, mas o primeiro banco fundado no país não tinha como objetivo a captação de depósitos e concessão de empréstimos, mas apenas a emissão de papel moeda e somente em 1838, ou seja, trinta anos depois é que a dinâmica de captação e concessão teve inicio no país.

As dimensões territoriais do nosso país e a desarticulação entre as regiões produtivas geraram “regiões monetárias isoladas” (Contel, 2006), o que permaneceu até 1906, quando o Banco do Brasil foi instituído como representante do Estado e única instituição autorizada a emitir papel moeda no país.

A “unificação” da moeda no país não possibilitou uma distribuição uniforme dos agentes monetários pelo território, pois não existia uma estrutura consolidada nos meios de transportes e de comunicação. O Estado, por meio da Sumoc, a partir de 1945 instituiu várias normas e regras para a abertura e funcionamento de agências bancárias no país, fomentando uma maior distribuição e abrangência do sistema no Brasil. Sem a intervenção da autoridade monetária as instituições financeiras manteriam uma maior concentração em áreas que possuíssem uma dinâmica econômica, ou seja, aonde existia uma demanda para os serviços e crédito bancário.

A partir da década de 1960 a rede de atendimento dos agentes financeiros sofreu uma grande ampliação motivada pelo novo sistema de transportes adotado, o rodoviário, o qual propiciou uma maior abrangência do sistema em relação ao modal ferroviário. Além da mudança no modal de transportes ocorrida nesse período outro fator que proporcionou a ampliação da rede de atendimento foi o avanço tecnológico nos meios de comunicação do país. O avanço técnico-científico que ocorreu a partir deste período foi amplamente utilizado pelo sistema bancário e deu inicio a grandes mudanças nas rotinas diárias dos serviços, possibilitando uma ampla integração do sistema e uma maior velocidade nas operações e na “velocidade da circulação do dinheiro no território” (Contel, 2006, p.112).

Em 1988 com a promulgação da nova Constituição Brasileira os bancos tornaram-se múltiplos, ou seja, não estariam mais limitados apenas ao setor financeiro, podendo atuar em outros ramos da economia. Todas as mudanças normativas, regulamentadoras ou ações do Estado não ocasionaram tantas alterações na dinâmica bancária como a estabilização econômica proporcionada pelo Plano Real a partir de 1994. As instituições financeiras que permaneceram em atividade após essa data tiveram que efetivar grandes mudanças na sua maneira de atuar e nos produtos disponibilizados para comercialização. As ações que eram voltadas para a captação de recursos visando a lucratividade com a remuneração dos títulos do governo federal em virtude da alta taxa de inflação vivenciada pelo país e as poucas linhas de empréstimos disponíveis deram lugar a um amplo portfólio de produtos e serviços, possibilitando aos bancos uma adaptação a nova realidade da economia nacional, retomando a lucratividade anterior e posteriormente ampliando-a exponencialmente a partir do ano 2000.

Nem todas as instituições financeiras que atuavam no país conseguiram suportar a mudança abrupta no mercado nacional e o sistema, com o auxilio do Estado através do PROER e PROES, se ajustou por meio de fusões e aquisições entre os seus próprios atores ou pela entrada de grandes bancos internacionais no cenário Nacional, entre eles o Espanhol Santander, o Holandês ABN Amro e o Britânico HSBC.

A partir de 1995 em decorrência da estabilidade econômica os cartões de débito e principalmente os de crédito começaram a ganhar espaço no mercado nacional, tornando-se um dos principais meios de pagamento utilizados atualmente. A quantidade de cartões emitidos e o volume financeiro movimentado por meio dessas modalidades de pagamento chegaram à cifra de R$ 311 bilhões em 2007, sendo a modalidade de crédito movimentou cerca de R$ 183 bilhões, algo que não seria possível num mercado com altos índices inflacionários, portanto a estabilidade econômica foi fundamental nas alterações sofridas pelo sistema bancário do país. Outra mudança deste período foi o maior volume de empréstimos concedidos as pessoas físicas com intuito de fomentar a aquisição de bens de consumo duráveis, por meio de financiamentos ou consumo de bens não duráveis por meio de crédito pessoal ou limite de crédito em conta corrente ou cartão de crédito.

A globalização econômica que o País começou a sentir a partir de 1994 devido à maior abertura do mercado financeiro a instituições financeiras internacionais também possibilitou a ampliação dos espaços de utilização das linhas de crédito oferecidas no país. Os portadores de cartões de crédito com bandeira internacional foram amplamente beneficiados com essa nova realidade, pois com uma moeda estável e valorizada foi minimizada a aquisição de moedas estrangeiras para viagens internacionais devido a possibilidade de utilização dos cartões de crédito internacional em qualquer país que possua estabelecimentos conveniados as administradoras que atuam no Brasil.

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Monografia: A Internacionalização do crédito

A abertura do mercado brasileiro na década de 1990 possibilitou a entrada de diversas instituições financeiras por meio de aquisições de bancos e financeiras já instaladas no país ou do aumento de sua participação nas empresas em que já possuíam capital empregado. Contudo essa “invasão” internacional no sistema bancário apenas demonstra que o capital é totalmente fluido em relação ao território, pois as instituições financeiras que abarcaram seu capital em bancos no Brasil já possuem empresas, financeiras ou não, em diversos países pelo mundo. As bolsas de valores são outro exemplo da mobilidade financeira mundial possibilitando que os aplicadores possam migrar seus investimentos sempre que outro mercado se torne atrativo.

Essa característica do capital somente está presente quando se trata de grandes empresas e de investidores internacionais, pois no que se refere à pessoa física comum o crédito sempre está limitado à instituição da qual é cliente. Todos os bancos possuem diversas linhas de crédito a disposição de seus clientes, mas este crédito só acessível na instituição que a concede, em muitos casos apenas na agência onde detém a sua conta. Em conseqüência deste fato o crédito também se limita ao território onde a instituição está instalada, não sendo possível pleitear um empréstimo ou qualquer tipo modalidade de crédito em outro país e, no caso do Banco Nossa Caixa, as limitações territoriais são mais flagrantes, pois sua capilaridade territorial restringe-se ao estado de São Paulo e sete outros pontos fora de seu estado de origem (Campo Grande/MS, Curitiba e Londrina/PR, Belo Horizonte e Uberlândia/MG, Brasília/DF e Rio de Janeiro/RJ).

Uma exceção que podemos citar a esta regra é o cartão de crédito, pois mesmo sendo emitido aqui no Brasil, desde que na versão internacional, ele pode ser utilizado em todos os países que possuem empresas conveniadas as administradoras do crédito. O que abre essa possibilidade é que as administradoras de cartões de crédito estão presentes em quase todo o mundo, através dos contratos de emissão com bancos ou grandes empresas e pelas lojas conveniadas, onde milhões de estabelecimentos aceitam receber suas vendas ou prestação de serviços por esta modalidade de pagamento. Portanto um cliente do Banco Nossa Caixa, ou de qualquer outra instituição do país, que possua um cartão de crédito com abrangência internacional pode usufruir do limite de crédito concedido em quase todas as partes do mundo e pagar suas despesas com o cartão. Os gastos efetuados são convertidos da moeda local para a nossa moeda, o real, na próxima fatura de pagamento.

Ou seja, um banco territorialmente limitado como é o caso da Nossa Caixa, valendo-se das grandes empresas de cartão de crédito, pode, em certas modalidades, alargar suas latitudes.

Monografia: A Moeda Eletrônica – Cartões de Débito e Crédito (parte 2)

          Além dos bancos, várias lojas de grande porte também iniciaram a emissão de cartões próprios ou em parceria com grandes administradoras de cartões de crédito, ampliando ainda mais as possibilidades deste novo mercado. Esse processo se tornou possível com a perspectiva de se compartilhar dados entre as instituições e os pontos de atendimento em tempo muito curto ou real. Estas empresas demandavam uma malha que abrangesse o território nacional, ou melhor, que interligasse da forma mais eficiente possível os pontos de interesse (DIAS, 1996). Nesse ponto o estado de São Paulo sempre apresentou boas condições de atendimento às necessidades do setor e se consolidou como o grande concentrador dos conglomerados financeiros e principal ponto da rede financeira nacional.

          Toda essa base bem estruturada caracteriza o sistema bancário como uma importante peça do circuito superior da economia (Santos, 2004), pela sua capacidade tecnológica e de organização, mas paralelo a este circuito também se formava um circuito inferior.

           A existência de uma massa de pessoas com salários muito baixos ou vivendo de atividades ocasionais, ao lado de uma minoria com renda muito elevadas, cria na sociedade urbana uma divisão entre aqueles que podem ter acesso de maneira permanente aos bens e serviços oferecidos e aqueles que, tendo as mesmas necessidades, não têm condições de satisfazê-las. Isso cria ao mesmo tempo diferenças quantitativas e qualitativas no consumo. Essas diferenças são a causa e o efeito da existência, ou seja, da criação ou da manutenção, nessas cidades, de dois circuitos de produção, distribuição e consumo dos bens e serviços. (SANTOS, 2004, p.37)

            O sistema financeiro brasileiro tem sofrido várias mudanças nos últimos anos e a rede bancária que outrora atendia prioritariamente o circuito superior começa a se comportar de forma diferente. O sistema financeiro mostra sinais de interesse também no circuito inferior.

          A tecnologia em comunicação proporciona a facilidade de acesso ao crédito e um maior controle sobre as informações pessoais da população com a possibilidade de compartilhar informações sobre a adimplência/inadimplências do tomador nos órgãos de informações de crédito (SERASA, SCPC e SISBACEN[1]). Portanto em torno das empresas do ramo formou-se uma rede em que se pode controlar mais do que o dinheiro que circula entre a população, desde o circuito superior da economia até o circuito inferior por meio da recente inclusão bancária, pois os dados disponibilizados pelos órgãos ou empresas que prestam os serviços de analise e informações sobre as experiências anteriores dos clientes propicia ao sistema financeiro uma maior eficiência na concessão de crédito por meio do controle do percentual de comprometimento da renda, o que concede maiores condições de garantir a adimplência do tomador e de regular o mercado.

           O Banco Nossa Caixa S/A entrou definitivamente no mercado de cartões a partir do ano de 2003, através da criação de uma subsidiária de administração de cartão de crédito e a consolidação de parcerias com as duas maiores administradoras de cartões do país e do mundo: A Mastercard e a Visa. Essa parceria possibilitou uma grande emissão de cartões pelo Banco Nossa Caixa e uma rápida inserção neste mercado, considerando que o Banco Nossa Caixa possui quase a totalidade da sua rede de unidades no Estado de São Paulo, pois apenas cinco unidades se localizam fora do Estado.

 Tabela 10

MERCADO DE CARTÕES DE CRÉDITO
    2003 2004 2005 2006 2007
TOTAL DO PAÍS Nº cartões (milhões) 45 53 68 79 93
Nº transações (milhões) 1.100 1.400 1.700 2.000 2.400
Valor transações (bilhões) 88 101,3 123 151,2 183,1
NOSSA CAIXA Nº cartões (milhões) 0,04 0,37 0,83 1,3 1,7
Nº transações (milhões) 0,08 4,7 11,3 19,6 31,6
Valor transações (bilhões) 0,001 0,31 0,71 1,27 2,1
 % PARTICIPAÇÃO NOSSA CAIXA Nº cartões 0,09% 0,70% 1,22% 1,65% 1,83%
Nº transações 0,01% 0,34% 0,66% 0,98% 1,32%
Valor transações 0,00% 0,31% 0,58% 0,84% 1,15%
Elaborado por: Paulo S. C. Alonço Fontes: ABECS e DECAR – Depto de Cartões do Banco Nossa Caixa

          Em 2007 o Banco Nossa Caixa já havia emitido mais de 1,7 milhões de cartões de crédito, frente aos 93 milhões de cartões de crédito emitidos no país, o que representa 1,83% de participação no mercado, com menos de cinco anos de atuação, pois as emissões tiveram inicio em novembro de 2003. Diante da magnitude dos números e cifras envolvidos nas operações efetuados com cartões, os números apresentados pelo Banco Nossa Caixa S/A podem parecer insignificantes, mas é necessário ponderar o curto espaço de tempo que a instituição está presente num mercado bem alicerçado desde a segunda metade da década de 1990. Outro fator relevante é que os números utilizados referem-se ao total de cartões e utilizações do país. Se considerarmos o volume financeiro que circula no Estado de São Paulo, próximo de 40% do país, e fizermos uma equiparação com o total de 93 milhões de cartões, esse número cai para 37,2 milhões de cartões, onde a participação da Nossa Caixa seria de 4,56%, um número muito expressivo para a 11ª instituição financeira do país.

          Entre os usuários dos cartões do Banco Nossa Caixa S/A 49,7% são Profissionais liberais ou funcionários de empresas privadas e 40,9% são servidores públicos estaduais. Esses números demonstram o potencial de crescimento na venda de cartões que o Banco Nossa Caixa S/A detêm, pois os servidores públicos estaduais (aproximadamente 1.100.000) começaram a receber seus proventos através do banco somente em janeiro de 2007 e metade desse contingente não possui nenhum cartão do Banco Nossa Caixa.


[1] SERASA – Empresa Brasileira de analise de crédito/ SCPC – Serviço Central de Proteção ao crédito/ SISBACEN – Sistema de informações do Banco Central.

 

Monografia: A Moeda Eletrônica – Cartões de Débito e Crédito (parte 1)

A história do cartão de crédito remonta à década de 1920, mas o primeiro cartão de crédito foi emitido em 1950 pelo Executivo Frank Macnamara com a denominação de Diners Club Card. Em 1956 por meio de franquia foi lançado o cartão Diners Club no Brasil, inicialmente como cartão de compras e não de crédito, apenas em 1968 é lançado o primeiro cartão de crédito por um banco, já o cartão de débito foi lançado somente em 1983. A utilização do cartão de crédito como meio de pagamento nos EUA e na Europa é bem difundido há várias décadas, mas no Brasil apesar de sua presença desde a década de 1950, como nos EUA, a sua aceitabilidade e ampla utilização só ocorreu na década de 1990, principalmente após o Plano Real e a estabilização da economia.

A partir do ano de 1995 ocorre uma crescente emissão de cartões de crédito e de débito, onde ano após ano a quantidade de cartões emitidos e ativos é cada vez maior. As novas tecnologias facilitaram em grande parte essa mudança no sistema de pagamentos, diminuindo vertiginosamente a emissão de cheques e ampliando a utilização dos meios de pagamentos eletrônicos, proporcionando mais segurança nas transações além do menor custo para o sistema. A utilização de cartões magnéticos proporcionada pelas novas tecnologias atingiu todas as modalidades de pagamento e nichos de mercado, desde os benefícios da Previdência Social (INSS), cartões telefônicos, vale Alimentação, vale transporte, lojas de departamentos, rede de combustível, cartão de contas bancárias e os cartões de crédito.

No ano 2000 o país já possuía 119 milhões de cartões emitidos, em 2003 esse número já alcançava 222 milhões, chegando em 2007 a quantidade de 436 milhões de cartões. Considerando que a população brasileira é de 183,9 milhões de habitantes (IBGE, 2007) podemos inferir que há uma emissão de 2,37 cartões por habitante. Um número muito expressivo, principalmente se considerarmos quem nem todos possuem condições etárias ou financeiras de possuir uma conta bancária, ou cartão de crédito.

Tabela 9

MERCADO DE CARTÕES

 

 

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

Total

Nº cartões (milhões)

119

151

183

22

277

338

386

436

Nº transações (bilhões)

1,3

1,6

1,9

2,2

2,9

3,6

4,3

5,1

Valor transações (bilhões)

69,2

93

110

134

167

209

254

311

Crédito

Nº cartões (milhões)

29

38

42

45

53

68

79

93

Nº transações (bilhões)

0,7

0,8

1

1,1

1,4

1,7

2

2,4

Valor transações (bilhões)

48,4

63,6

73

88

101

123

151

183

Débito

Nº cartões (milhões)

48

64

82

105

138

171

187

201

Nº transações (bilhões)

0,2

0,4

0,5

0,7

1,1

1,4

1,6

1,9

Valor transações (bilhões)

10,6

16,7

21,8

28,8

44,2

58,2

69,4

88

Loja e Rede

Nº cartões (milhões)

42

50

59

71

86

99

120

142

Nº transações (bilhões)

0,3

0,3

0,4

0,4

0,5

0,6

0,7

0,8

Valor transações (bilhões)

10,2

12,7

14,8

17,6

21,7

27,4

33,7

39,4

Fonte: ABECS, Associação Brasileira de empresas de cartões de crédito e serviços adaptado por Paulo S. C. Alonço

 

          A ampliação na utilização dos cartões de crédito ocasionou uma mudança nos circuitos da economia, principalmente nos últimos anos, devido à “abertura” do sistema bancário para os extratos sociais mais pobres. Vários bancos nos últimos anos buscam por meio da criação de produtos específicos e com a diminuição dos custos operacionais, atrair essa fatia da população, proporcionando a sua inclusão no sistema bancário de crédito e serviços. Essa nova realidade vem alterando significativamente as estruturas do circuito econômico, possibilitando aos novos membros do sistema financeiro um alargamento territorial do consumo que, anteriormente, era limitado ao entorno do trabalho e residência (crédito local).

Monografia: O Banco Nossa Caixa S/A

O Banco Nossa Caixa foi instituído em 1917 sob a razão social de Caixa Econômica do Estado de São Paulo (CEESP), com o intuito de fomentar a poupança da população paulista. O Estado de São Paulo já contava com outra instituição bancária, o Banespa, que manteve suas funções de fomento a agricultura e as demais atividades produtivas no Estado.

“Sua função era promover ambiente seguro e remunerador para as pequenas economias, de forma a estimular as classes populares a economizarem parte de seus rendimentos, precavendo-se de qualquer acontecimento futuro, quando fosse necessária alguma soma em dinheiro; e prover auxilio adicional, a juros abaixo dos praticados no mercado, quando aquelas economias fossem insuficientes”. (Costa Neto apud Contel, 2006, p.32)

A capilaridade de agências da CEESP acompanhou inicialmente as linhas férreas existentes no território paulista e conjuntamente com os demais atores do sistema bancário ampliou sua rede de atendimento por todo o Estado de São Paulo nas décadas de 1940 a 1960.

Em 1988 com a promulgação da nova Constituição Federal e da Resolução nº 1.524 de 21.09.88 do Conselho Monetário Nacional a CEESP em 09/02/1990 altera sua razão social para Nossa Caixa Nosso Banco S/A (NCNB), deixando de ser uma caixa econômica para se tornar um Banco Múltiplo. Essa alteração nas normas do sistema bancário provocou na Nossa Caixa Nosso Banco a necessidade de uma nova postura no mercado financeiro. O Plano Real alterou toda a dinâmica do setor bancário e a NCNB também teve que se adaptar a nova realidade imposta, uma vez que seus lucros se baseavam na remuneração de Títulos Públicos pela taxa básica de juros.

Tanto o Banespa como a NCNB eram agentes do estado de São Paulo e suas capacidades de crédito foram utilizadas por vários mandatos governamentais, causando uma crescente dívida do estado com as duas instituições. A dívida estatal com os dois bancos evidenciou a falta de liquidez das instituições que rotineiramente necessitavam de auxilio do Banco Central, por meio da Carteira de Redesconto, para honrar seus compromissos. Este fato ocasionou a intervenção, por parte do Governo Federal em ambas as instituições. O governo de São Paulo, representado pelo então Governador Mario Covas conseguiu por meio de articulações políticas manter a Nossa Caixa Nosso Banco S/A sobre controle estadual, pois a venda do Banespa era suficiente para sanar as dívidas do estado, portanto o banco foi utilizado como moeda de troca indo a leilão em Novembro de 2000, sendo comprado pelo Banco Santander S/A.

Um Novo desafio se apresentava à Nossa Caixa Nosso Banco, assumir todas as funções exercidas pelo Banespa, como único representante do Estado. Gradativamente as operações que eram responsabilidades do Banespa migraram para a NCNB, entre elas: As contas do estado e das Secretárias, o pagamento dos fornecedores do estado, os depósitos judiciais e a folha de pagamento dos servidores públicos estaduais.

Como agente do sistema financeiro na figura de banco múltiplo e impulsionada pelo novo papel imposto a Nossa Caixa buscou ampliar o seu portifólio de produtos e serviços, visando atender as demandas do mercado. Em 23/01/2001 uma nova alteração na denominação social da empresa é autorizada pelo Banco Central, passando a se chamar Banco Nossa Caixa S/A.

 

Monografia: Número de agências bancárias x funcionários x postos de atendimento

Além das mudanças ocorridas na quantidade de instituições presentes no sistema financeiro e as alterações de controles acionários os bancos tiveram que se adaptar a novas exigências do mercado nacional e globalizado. O avanço tecnológico e a utilização maciça dos meios de comunicação que se iniciaram na década de 1970 foram amplamente acelerados após o Plano Real. Mas apenas melhorias técnicas não seriam suficientes para manter ou alavancar os lucros dos bancos, assim as instituições financeiras do país foram obrigadas a aumentar a disponibilidade de crédito, fomentar a venda dos produtos já existentes, criar novos produtos e tarifar todos os serviços prestados.

Paralelo, porém, sem similaridade ao que ocorreu nas décadas de 1910/1960, quando os bancos ampliaram seus pontos de atendimento em busca da captação de depósitos para ampliar sua capacidade de concessão de crédito, a nova dinâmica do sistema bancário após o Plano Real seguiu o mesmo caminho, pois os ganhos com a inflação já não existiam e ampliar as operações de crédito era fundamental para a sobrevivência das instituições. Neste contexto as instituições ampliaram seus pontos de atendimento, mas ao contrário das décadas de 1910/1960 as novas tecnologias propiciaram a abertura de postos de atendimento eletrônicos e correspondentes não bancários (Estabelecimentos comerciais que prestam diversos serviços bancários, como saques, recebimento de contas e depósitos), o que aumento ainda mais a capilaridade do setor no território.

Tabela 6

Variação do Número de Pontos de atendimento 2000/2007

PERÍODO

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

Número de Agências

16.396

16.841

17.049

16.829

17.260

17.515

18.067

18.308

Postos tradicionais (1)

9.495

10.241

10.140

10.045

9.837

9.527

10.220

10.427

Postos Eletrônicos

14.453

16.748

22.428

24.367

25.595

27.405

32.776

34.790

Correspondentes não bancários

13.731

18.653

32.511

36.474

46.035

69.546

73.031

84.332

Total de dependências

54.075

62.483

82.128

87.715

98.727

123.993

134.094

147.857

Podemos verificar que o número de agências aumentou 11,66% no período de 2000 a 2007, enquanto o total de pontos de atendimento evoluiu de 54.075 em 2000 para 147.857 em 2007, um aumento de 172,93%. Outros pontos que devem ser ressaltados na nova dinâmica do setor são a utilização dos convênios de arrecadação por meio do serviço de débito automático (Contas de consumo e afins) e a utilização da Internet.

Tabela 7                                                                          (Em milhões)

Atendimentos

Número

% sobre o Total

Caixas de agências

3.799

10,40%

Auto Atendimento

11.901

32,40%

Call Canter

1.194

3,30%

Internet Banking

6.163

16,80%

Débitos automáticos

8.995

24,50%

Número de cheques compensados

1.709

4,70%

Correspondentes e PDV*

2.921

8,00%

Total

36.682

100,00%

Nota: *PVD = Pontos de Vendas

Fonte: Febraban

Tabela 8

Numero de trabalhadores do setor bancário brasileiro -1994/2008

Ano

Número de empregados

1994

571.285

1995

558.692

1996

483.165

1997

446.830

1998

426.442

1999

406.315

2000

402.425

2001

400.802

2002

* não disponível

2003

389.074

2004

382.786

2005

402.977

2006

424.993

Elaborado por Paulo S. C. Alonço Fonte: Febraban.org.br/bd – Dados dos bancos participantes

Com relação aos postos de trabalho nos bancos brasileiros podemos verificar por meio da tabela 8 que o setor sofreu baixas expressivas nos três primeiros anos pós Plano Real, regredindo de 571.285 para 446.380 postos de trabalho, uma queda de 21,95%. Esse declínio se manteve, em menores taxas, até o ano de 2004 com uma redução de 33% no quadro de funcionários dos bancos em comparação com 1994. Apenas em 2005 o setor voltou a contratar, apresentando assim um número próximo daquele que existia em 1998.

Gráfico 1

in: http://www.dieese.org.br/notatecnica/notatec55FusaoBancaria.pdf

O impacto causado pela implantação do Plano Real ocasionou uma queda acentuada na lucratividade, baseada no processo inflacionário e no alto spread que existia nas operações de crédito, dos bancos brasileiros. Nos anos de 1995 e 1996 o sistema apresentou prejuízos, mas já em 1997 voltou a acumular altos lucros que se mantiveram na faixa dos R$ 5 bilhões até o ano de 2001. A partir do ano de 2002 a lucratividade dos bancos atingiu cifras acima dos R$ 10 bilhões iniciando uma curva ascendente chegando próximo dos R$ 30 bilhões em 2006.

Portanto podemos perceber que após o impacto inicial provocado pela estabilização monetária após o Plano Real em 1994 o sistema bancário passou por várias alterações, as quais possibilitaram que as instituições financeiras em atividade no país aprimorassem cada vez mais suas estruturas, reduzissem seus custos e alavancassem seus lucros. Vários fatores contribuíram para essa crescente rentabilidade do setor, dos quais podemos citar:

A redução no quadro de funcionários;

A terceirização de diversos serviços;

O direcionamento dos clientes para as lojas de auto-atendimento e outros canais alternativos;

O alto spread das operações de crédito devido à alta taxa de juros básico (SELIC1), aliado ao grande aumento das operações de crédito;

A livre cobrança de tarifas sobre os serviços prestados, as quais cobrem a totalidade dos custos com a folha de pagamentos de quase todos os bancos;

A massificação de produtos e serviços já existentes;

E a criação de novos produtos.

A estabilização monetária aliada aos baixos percentuais de participação das operações de crédito na renda nacional, hoje em torno de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, principalmente nas operações de varejo (Crédito Pessoa Física), em conjunto com a ampliação dos prazos de pagamentos e financiamentos, possibilitando a um número crescente de pessoas a compra de bens de consumos duráveis, fomentou as concessões de crédito para as empresas e Pessoas Físicas. A atuação das financeiras nesse aspecto foi muito importante, através do CDC (Crédito direto ao consumidor) utilizado principalmente nos financiamentos de veículos. As financeiras já existentes, e várias que surgiram nessa nova fase, ampliaram sua participação no mercado possibilitando a concessão de crédito com menor burocracia, mesmo que a um custo mais elevado. Outro fato relevante foram as mudanças nas grandes lojas de departamentos, que passaram a emitir seus próprios cartões, inicialmente apenas para o uso interno e posteriormente externo, além de concederem empréstimos devido às mudanças na sua constituição, ou seja, passaram a agir como empresas financeiras e não apenas comerciais.

Com a estabilidade econômica e as facilidades apresentadas para a aquisição de crédito junto aos bancos, financeiras ou diretamente nas empresas, o setor produtivo do país teve um grande impulso, o que deveria ocorrer apenas com o aumento da renda da população, conforme questiona Schumpeter.

Não é um elemento das formas e necessidades fundamentais da vida industrial. Não faz parte da natureza econômica de nenhum indivíduo que deva contrair empréstimo para o consumo nem da natureza de nenhum processo produtivo que os participantes devam incorrer em dívidas para o propósito do consumo. (SCHUMPETER: 1985, p. 72 apud Jacob, 2003)

Além das operações de crédito outros produtos que também ganharam importância nessa nova fase do sistema bancário foram os títulos de capitalização; os seguros de vida, de veículos e de residência; os planos de previdência privada; o limite de cheque especial e os cartões de débito e crédito.


1Taxa básica de juros determinada pelo Banco Central e utilizada na remuneração dos títulos públicos e empréstimos intebancários.

Monografia: As Fusões/incorporações bancárias

Com o fim dos ganhos inflacionários – principalmente das instituições com grandes valores em títulos públicos, e a redução da liquidez do sistema, devido à inexperiência nas concessões de crédito gerando altos índices de inadimplência –, resultou uma crise sistêmica no setor bancário, o que provocou a intervenção do Banco Central do Brasil no sistema bancário, por meio do aumento no percentual do compulsório e a limitação de prazos nas operações de crédito. O governo instituiu dois programas de reestruturação do sistema bancário, o Programa de Estimulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER), com o objetivo de estimular a transferência do controle acionário dos bancos privados em dificuldades para instituições sem problemas, e o Programa de Estimulo à Redução do Setor Público na Atividade Bancária Estadual (PROES), com o objetivo de sanear os bancos estaduais.

Além das reestruturações internas ocasionadas pelo PROER e PROES, e, motivado pela liberação financeira do país com a inserção no fluxo internacional de capitais, várias instituições financeiras internacionais adquiriram bancos nacionais ou expandiram suas ações no país. Cabe ressaltar que no PROER foram investidos cerca de R$ 21 bilhões, mas apenas seis aquisições, de um total de cinqüenta e quatro, se efetivaram com esse financiamento, as mais importantes foram as dos bancos, Econômico, Nacional e Bamerindus, as demais quarenta e oito aquisições foram efetuadas sem financiamento público. Mesmo com o aporte de capital internacional os bancos que efetivaram mais aquisições foram de capital e controle nacional, o Bradesco e o Itaú.

Tabela 3

Maiores Compradores Pós 1994

Banco Comprador

Período

Quantidade de Aquisições

BRADESCO

JAN/97 A JAN/06

16

ITAÚ

JUL/95 A MAI/06

9

UNIBANCO

NOV/95 AJUN/04

8

ABN AMRO

JUL/98 A AGO/03

4

SANTANDER

DEZ/97 A NOV/00

4

Elaborado por Paulo S. C. Alonço  Fonte: Banco Central do Brasil – www.bcb.gov.br

As políticas adotadas pelo Estado (PROER, PROES), a concorrência existente no sistema financeiro, mais as fusões e incorporações que aconteceram após 1994, alteraram substancialmente o quadro de instituições financeiras no país. Cabe ressaltar que este processo permanece ativo até os dias atuais e continuará acontecendo em virtude da grande concorrência existente no setor e a incessante busca por ganhos de escalas e redução de custos.

Tabela 5

Variação do Número de Bancos 2000/2007

PERÍODO

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

Número de Bancos

192

182

167

165

164

161

159

156

Privados nacionais com e sem participação estrangeira

105

95

87

88

88

84

85

87

Privados estrangeiros e co controle estrangeiro

70

72

65

62

62

63

61

56

Públicos Federais e Estaduais

17

15

15

15

14

14

13

13

Banco Central do Brasil – http://www.bcb.gov.br

Na tabela 5 verificamos que as duas grandes mudanças referentes ao controle acionário das quinze maiores instituições financeiro do país foram a queda de 50% nas instituições que possuíam controle público (de oito em 1995 para quatro em 1998 e 2007) e o aumento dos bancos sob controle estrangeiro, passando de zero em 1995 para cinco em 1998 e seis em 2007. Se considerarmos todos os bancos múltiplos, existiam cinqüenta instituições estrangeiras com participação percentual variável em oitenta e três bancos do país em 2007 conforme dados do Banco Central. Essas mudanças demonstram o quanto as políticas monetárias efetuadas pelo Estado e a concorrência no sistema bancário desde a implantação do Plano Real em 1994 alterou a dinâmica do setor no país. Deve-se notar o crescimento que o Banco Itaú S/A apresentou no período 1995/2007, passando da sexta para a segunda posição no ranking das maiores instituições bancárias, e com a recente fusão anunciada com o Unibanco S/A (Outubro/2008) será o maior conglomerado financeiro da América Latina. Outro dado importante é o desaparecimento de grandes bancos no período, entre eles o Banespa, comprado pelo Santander (Espanhol), O Bamerindus, comprado pelo HSBC (inglês) e o Banco Real, comprado pelo ABN-AMRO (Holandês).  Na tabela 5 percebemos que a concentração do sistema continua o seu processo, pois em 2000 existiam 192 bancos em atividade no país contra 156 em 2007, representando uma queda de 18,75% nos números de atores no sistema.